• Leo C. Arantes

Coringa - sem Spoilers

Atualizado: 19 de Ago de 2020



No meio de um turbilhão de críticas sobre a violência e suas motivação, a DC nos leva para o início da década de 1980, e traz mais um de seus filmes "sombrios e realistas", afim de contar a trágica história (e põem trágica nisso) de Arthur Fleck, o homem que viria a se tornar o vilão mais icônico de todos os tempos nos quadrinhos. Não só isso, DC e Warner também trazem um frescor ao gênero de super heróis, que parece estar perto do ponto de saturação, fazendo um filme que em nada se parece com os coloridos Vingadores ou Aquaman, por exemplo; e de quebra pode não só concorrer, mas também faturar algumas estatuetas na próxima edição do Oscar.


Há muito tempo, críticos e fãs tem se questionado se é possível fazer um filme de gênero dentro do subgênero de super heróis, coisa que nos últimos anos tem se tornado como que um desafio as produtoras, com DC/Warner e Marvel/Disney travando uma batalha de certo modo justa, tendo em vista a qualidade das histórias que as duas tem em mãos; mas mais favorável à Casa das Ideias, que apostou em um universo expandido mais coeso, com filmes mais "família", diferente da sua concorrente que aposta em filmes mais voltadores para o realismo, falhando, entretanto, na execução e na liberdade (ou falta dela) que os diretores têm para fazer seu trabalho.


Ambos estúdios tem tentado adentrar no território dos gêneros convencionais como drama, suspense e terror, mas até agora com muita timidez; vide os filmes do Homem Formiga, que tem leves traços dos filmes de assalto, e Novos Mutantes, que teria uma pegada bem forte terror e suspense, mas que foi adiado com a compra da Fox pela Disney. Já em Coringa, logo na primeira cena, quando vemos Arthur tentando, sem êxito, sorrir de forma genuína, percebemos que este é um filme sobre um drama pessoal, que ganha ares de suspense quando avança rumo ao clímax e tem os pé tão fincados na realidade que só percebemos se tratar de um filme sobre quadrinhos quando vemos o logo da DC nos créditos finais, que por sinal é a primeira vez que ele aparece.


A risada espontânea, tão almejada por Fleck é quase impossível, tendo em vista não só sua vida medíocre e todo o sofrimento a que é submetido todos os dias, como ele próprio o diz, mas também por uma patologia, muito parecida com a Síndrome de Angelman, que o faz rir descontroladamente a qualquer momento, principalmente quando o personagem está nervoso ou apreensivo.


Joaquin Pheonix

Falando na vida de Arthur, todo o sofrimento, angustia e agonia que o roteiro impõem ao personagem não teriam o efeito devastador que tem tido sobre o público, não fosse a magnífica atuação de Joaquin Pheonix, que interpreta tão bem, que algumas vezes o personagem se sobrepõem ao intérprete, nos fazendo esquecer quem é o ator por trás das caras e bocas do Palhaço do Crime. Phoenix disse em entrevista que estudou o riso patológico através vídeos reais de pessoas que sofrem com tal doença, além de ler livros sobre o comportamento de psicopatas e pessoas com problemas mentais para fazer o papel. O ator incorpora todos os trejeitos característicos dessas pessoas, apresentando aos poucos um homem que mesmo aparentando seus 30 e poucos anos, ainda tem um comportamento infantil, muito dependente de sua mãe, que também apresenta problemas psicológico, a quem ele cuida com carinho, mas lhe falta paciência em algumas ocasiões.

A Jornada do Vilão

A jornada que leva Arthur Fleck a se tornar o vilão que conhecemos é bem diferente da que já vimos em A Piada Mortal, por exemplo. Apesar de ter alguns aspectos em comum como o estado de depressão que o personagem se encontra, o eventual desemprego e os problemas financeiros que só se agravam com o passar do tempo, aqui, isso não é algo ocasional, que acontece de um dia para o outro, como o próprio Coringa de Alan Moore diz na célebre frase: "Basta um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático".


Partindo do pressuposto de que sofrimento pouco é bobagem, o roteirista Todd Phillips, que também é o diretor do longa, afunda o personagem em um drama tão profundo, que é difícil vermos outra opção além surtar de vez. Quando ele é espancado por alguns garotos de rua, logo numa das primeiras cenas, é só o começo de uma longa sequência de acontecimento que o fazem perder a pouca sanidade que ainda lhe resta.


E aqui vai mais um elogio à belíssima atuação de Joaquin Pheonix, a medida que a cadeia de eventos trágicos na vida de Arthur Fleck se desenrola, podemos ver a aflição no rosto do personagem e imaginar exatamente o que se passa em sua mente; cada expressão, cada um de seus olhares melancólicos dão a dimensão da inquietação de sua alma. E no auge de todo esse martírio, através de mais um linchamento, o jogo vira, e numa explosão de ira vemos aflorar do interior do protagonista todo o ódio, que vai sendo descarregado naqueles que um dia o humilharam de alguma maneira.

Direção e Elenco

Todd Phillips, apesar de não ostentar um currículo de peso nem muito extenso, o diretor de Cães de Guerra e a trilogia Se Beber Não Case fez um belo trabalho aqui. Sua Gotham, baseada na Nova Iorque dos anos 70 e 80, é o caos encarnado, um lugar onde a crescente onda de criminalidade e a infestação de ratos manifestam um pouco da mente, também caótica de Arthur, que está presente em todas as cenas, mas sempre isolado dos demais personagens, quando não sozinho, em cenas que mostram sua solidão, sempre com planos médios, onde ele, sempre ao meio, aparece solitário, ou em planos fechados, focados nas expressões de desalento e desconforto por nunca ser notado por ninguém.


E por falar na fotografia, ela está impecável. Lawrence Sher, o responsável por este quesito, já trabalhou com Todd Phillips antes, nos principais filmes do diretor, além do recente Godzilla: Rei dos Monstro; por isso a sintonia entre os dois está em perfeito equilíbrio, proporcionando cenas que retratam o caos, sem serem caóticas, nos permitindo entender tudo o que se passa, como nas cenas de perseguição no metrô, por exemplo. Ademais o filtro cinza com tom esverdeado causa a estranheza típica de filmes que retratam anarquias sociais, explicitando como aquela sociedade é tóxica; e a medida que os minutos avançam, o gênero do filme muda, saindo do drama existencial inicial e migrando para o terror psicológico que nos deixa apreensivos, a espera do próximo ato bárbaro a ser cometido pelo vilão.


O outro ponto que merece destaque é o elenco. Zazie Beetz vive uma mãe solteira com quem Arthur tem empatia, gerada após uma pequena interação no elevador do prédio em que moram, interação rara na vida do protagonista, o que o leva a seguir sua vizinha em certa ocasião. A atriz está completamente diferente de Domino, personagem que interpretou em Deadpool 2, onde fazia uma heroína com poderes relacionados à sorte e em cenas bem mais cômicas, já em Coringa ela precisa expressar muito mais seu lado dramático e emocional. Mais um membro do elenco que está em evidência é Robert De Niro, que juntamente com Joaquin Pheonix, bateu seu recorde de bilheteria com Coringa, ultrapassando "Entrando Numa Fria Maior Ainda", seu longa de maior arrecadação até então. De Niro interpreta o comediante Murray Franklin, um ídolo para Arthur Fleck, mas que trai sua confiança ao exibir em seu talkshow um vídeo de Fleck fazendo seu primeiro stand up, debochando de suas piadas e de seu fracasso. Em mais uma atuação do nível que De Niro nos acostumou a ver.

Pontos Fracos

Aqui vai uma opinião pessoal de um ponto que pode gerar discordância. Apesar de todos os pontos positivos, o longo peca em alguns aspectos, principalmente quanto ao enredo. Para adaptar uma história de origem tão conturbada quanto a do Palhaço do Crime, os roteiristas precisaram alterar até alguns traços de sua personalidade, tornando-o um tanto infantil, com atitudes destoantes de seus "antepassados", como por exemplo suas tentativas de fazer o bem ou seu senso de justiça própria. O personagem nunca foi essencialmente bom, nem fazia qualquer coisa para dar lições de moral, como as que vemos aqui. Arthur é um sujeito rejeitado pela sociedade, uma vítima dela, como é comum ouvirmos hoje em dia, e portanto age contra isso, legitimando seus atos hediondos pelo que sofreu, muito distante do agente do caos trazido a tona por Heath Ledger, que agia única e exclusivamente para instaurar a mais pura desordem.

Conclusão

O longa-metragem parece ser um sopro de esperança para os fãs da DC, que diferente do último filme do estúdio, Aquaman, voltou a explorar sua faceta mais sombria, além de flertar com gêneros mais consagrados, como o drama e até com o terror psicológico, se tornando, talvez, o filme mais realista dentre suas produções. Contando com belas atuações, em especial de Joaquin Pheonix como o protagonista, Francis Conroy, a mãe de Arthur Fleck e Robert De Niro, como Murray Franklin, a produção nos lembra os bons tempos do Cavaleiro das Trevas, sob comando de Christopher Nolan, o que pode (re)iniciar uma nova leva de boas obras do estúdio. Como nada é perfeito nessa terra, o filme tem lá seus defeitos: através da adaptação o personagem principal acabou sendo um pouco descaracterizado, o que o transformou em um lunático sociopata qualquer, podendo protagonizar uma obra cinematográfica de drama ou terror qualquer, não fosse o figurino ou o nome no cartaz; e toda a polêmica envolvendo os incels (pessoas incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual e que culpam a sociedade por tal fato), o que acho descabido, porém tem criado certo alvoroço ao redor do mundo. Fica aqui nossa expectativa para que Warner/DC continuem nessa pegada, produzindo suas obras pensando nos fãs e não em alcançar a concorrência, pois Coringa nos colocou um sorriso no rosto.


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