• Leo C. Arantes

Dark - 2ª Temporada

Atualizado: 1 de Jul de 2020


A primeira temporada da surpreendente série alemã foi aclamada por público e crítica, aumentando as expectativas para uma continuação, que só estreou mais de um ano e meio depois da temporada inicial. Continuação esta que não nos decepciona, pois não só mantém a qualidade técnica da série como também agrega mais pontos positivos à trama, além dos já citados na resenha do primeiro ano (que você pode ler aqui), e por incluir um toque ainda mais denso de ciência, relativismo e porque não, complexidade.


Diferente de outras séries que, diante do sucesso da temporada inaugural estendem-as a perder de vista (vide Supernatural que vai para seu 15º ano, prometendo mais uma vez ser o último), Dark terá apenas 3 períodos. Isso já coloca uma ponta de felicidade no coração, pois sabemos que assim o roteiro se mantém coeso, como suas etapas de começo, meio e fim bem definidas, paradoxalmente à própria trama, onde os personagens dizem constantemente que "o fim é o começo e o começo é o fim". Dessa forma, a segunda temporada é nitidamente a fase de desenvolvimento da trama. Onde alguns mistérios são resolvidos, mas sobretudo, outros são criados e a transição entre linhas temporais fica ainda mais emaranhada.


Meu intuito não é destrinchar a série, muito menos os episódios, citando cenas em específico, e como já temos a base da crítica anterior, esta tende a ser mais curta e direta.

Roteiro

Se passaram 6 meses desde a cena final da primeira temporada, e como em Dark todas as linhas temporais se passam simultaneamente, soma-se esse tempo à todas, logo estamos agora em 1954, 1987 e 2020, além da inclusão de mais duas linhas temporais: o ano de 1921, onde vemos o surgimento da seita Sic Mundus, liderada pelo deformado Adam, e 2053, 6 meses após o aparecimento de Jonas Kahnwald, ainda em 2052, no fim da primeira temporada. Com isso a confusão de idas e vindas na linha temporal se instaura de vez, incluindo ainda mais personagens nessas viagens e não apenas Jonas e Mikkel, como na primeira temporada.

Jonas caminhando por uma Winden completamente destruída pelo apocalipse nuclear

Além dos dois que já haviam feito a viagem no tempo passando pela caverna na primeira temporada, e do misterioso viajante, que havia feito a viagem através da máquina do tempo criada pelo relojoeiro, boa parte dos personagens restantes viajaram pelo menos um vez para outra linha temporal nesta nova temporada. Cada um com uma motivação diferente: alguns por curiosidade, outros em busca de respostas ou, a principal motivação de alguns, para consertar erros cometidos em outros tempos.


Como dito anteriormente, o segundo ano da série é claramente a fase onde os grandes desdobramentos da trama deveriam acontecer, e com isso esperava-se que boa parte dos enigmas deixados ao fim do primeiro ato, por assim dizer, seriam resolvidos. E alguns até são resolvidos, como por exemplo quem era o menino encontrado morto com os olhos queimados na floresta e como ele chegou lá, porém os roteiristas optaram por não abrir totalmente as cortinas, deixando outros mistérios ainda em aberto, e, sobretudo, criando outros.


Nessa temporada a atmosfera pesada que ronda Winden começa a ser desvendada não só por nós, como também pelos seus moradores, que aos poucos vão descobrindo os segredos ocultos sobre a viagens temporais, e começam a duvidar se o futuro é ou não imutável, mesmo que mudem o passado. E este é um grande questionamento que fazemos, pois vemos alguns personagens, principalmente Jonas, Claudia e Ulrich, fazendo de tudo para alterar os acontecimentos futuros, e descobrindo que suas tentativas de alterar o destino foram justamente as que provocaram tais fatos.

O protagonista se depara pela primeira vez com a Partícula de Deus, citada na primeira temporada

Notamos claramente um ritmo mais acelerado, e a trama passa a transcorrer com mais fluidez, sem, entretanto, parecer apressada. Muito pelo contrário, todos os acontecimentos tomam o tempo necessário para se fazerem entendidos, mesmo que a série tenha que revisita-lo posteriormente para haver maior clareza. Nenhum núcleo de personagens é deixado de lado ou visitado em demasia, não nos deixando esquecer de ninguém, mesmo que esse não tenha tanta importância imediata para a trama. Apesar disso os arcos de Jonas e Claudia (em todas as suas versões) tem uma relevância maior para o andamento do mote principal, já que são eles quem movimentam as engrenagem para que o relógio funcione; o que podemos perceber, em especial, nas cenas de Jonas no futuro e o censo de urgência que o acomete, esforçando-se a todo custo para voltar à sua linha temporal de origem a fim de corrigir as anomalias causadas ao final da primeira temporada, e nas várias viagens que a versão idosa de Claudia faz para montar sua jogada no tabuleiro temporal.

Direção e Elenco

Nesta temporada os aspectos técnicos estão ainda mais apurados e com a adição de uma nova maneira de viajar através das linhas temporais, o uso de efeitos especiais mais sofisticados se fez necessário. Sendo empregados de maneira admirável, tais efeitos não destoaram do ambiente, sem deixar as cenas em que são usados toscas, mas dando um toque a mais na pegada si-fi da série. Pegada está que é impulsionada pelas novas linhas do tempo, permitindo que roteiristas e diretores (as mesmas pessoas nesse caso) brinquem com diferentes vertentes da ficção científica, como por exemplo o Steampunk visto em 1921 e o Pós-apocalíptico em 2052.

Cabe pontuar novamente, assim como na primeira temporada, a excelente escolha dos atores, que com um número maior de personagens neste segundo ato, exigiu da equipe de produção um cuidado ainda maior para encontrar atores tão parecidos em diferentes etapas da vida; criando até pontinhas de dúvidas em nossas cabeças se quando algum novo personagem surgia na trama este não seria alguma versão diferente de alguém que já conhecíamos. Vale ressaltar também as atuações destes vários atores, que conseguem interpretar o mesmo personagem sem descaracteriza-lo, muitas vezes até acentuando particularidades e trejeitos.

Veredito

A segunda temporada de Dark veio confirmar que esta é seguramente uma das melhores séries de ficção científica da atualidade. Mesclando os conflitos pessoais com viagem no tempo e sem medo de ser científica demais, Dark abusa de conceitos físicos e metafísicos sobre o assunto, além de abranger paradoxos complexos até para quem é entusiasta de física quântica, já que a própria série é um imenso Paradoxo de Bootstrap*. Sem mastigar nada para o espectador usando diálogos expositivos, o diretor e roteirista Baran Bo Odar conduz toda a trama de forma que, mesmo com tanto cientificismo, a atenção aos detalhes e uma boa memória dos acontecimentos da temporada anterior sejam o suficiente para não perder o fio da meada. Este segundo ano de exibição da série alemã é a síntese da expressão "mais e maior": mais personagens (e versões deles), mais viagens no tempo, mais linhas temporais, uma ameaça temporal maior e mais eminente, e é claro, mais complexidade.


*É quando as informações ou objetos podem existir sem terem sido criados. Após um objeto — ou informação — ser enviado de volta no tempo, ele, recebido no presente, torna-se o próprio objeto ou informação que será inicialmente levado de volta no tempo

6 JOIAS DO INFINITO

27 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo