• Leo C. Arantes

Dark - 3ª Temporada - COM SPOILERS

ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS, CONTINUE POR SUA CONTA E RISCO

Leia as críticas das duas primeiras temporadas aqui: Primeira/Segunda

O tão aguardado dia do Apocalipse chegou e entregou tudo o que esperávamos encontrar na temporada derradeira de Dark, consolidando-a como a maior série da Netflix e uma das melhores obras de ficção científica já feita.


Tamanha qualidade só foi possível porque as mentes criativas de Baran Bo Odar e Jantje Friese mantiveram a coesão do roteiro e mesmo inserindo novos elementos na reta final da série, fizeram isso com uma precisão invejável, fazendo os novos mundos e novos personagens encaixarem perfeitamente numa trama já muito complexa, abusando das viagens temporais e interdimensionais, sem nunca deixa de lado do tom poético e filosófico da série.


E como já citado na crítica da segunda temporada, Dark foi pensada para ter apenas três temporadas, com início, meio e fim bem definidos, mesmo que as viagens no tempo digam o contrário. Isso facilita demais o desenvolvimento tanto dos personagens, quanto da trama em si, tornando tudo mais coerente e redondo, sem pontas soltas ou barrigas que arrastam a resolução para mais adiante, movidas única e exclusivamente pelo intuito de lucrar.

Roteiro

A terceira temporada se inicia segundos após a conclusão da segunda, com uma Martha de uma terra alternativa salvando Jonas do Apocalipse causado pela abertura dos barris radioativos na usina nuclear, e levando-o ao seu mundo (que aqui chamaremos de mundo 2). Lá, ela o diz que "esse é o dia em que nos conheceremos" e parte de volta para o mundo de Jonas a fim reverter o que já foi feito e impedir o apocalipse em ambos os mundos.

Esse mundo alternativo, de onde a Martha, que chamaremos de Martha 2, veio, é idêntico ao de Jonas que vinhamos acompanhando desde a primeira temporada, porém invertido e com alguns personagens exercendo papéis inversos, como por exemplo, Hannah que é casada com Ulrich, e Katharina é a mãe solteira, vivendo com Martha, Mikkel e Magnus na casa, que no mundo 1 era de Hannah.


Nesse mundo alternativo, Jonas não existe, e consequentemente, Adam e seus planos para criar o paraíso. Porém, como esperávamos, Martha é quem exerce essa função, se tornando Eva no futuro e criando a Erit Lux (Que Haja Lux em latim), sociedade secreta aos moldes da Sic Mundus, porém com o intuito de provocar o Apocalipse no mundo 1 e assim salvar o seu próprio mundo da destruição.


Essa adição de um universo paralelo, mostrada no final da segunda temporada, causou certa apreensão entre os espectadores, que viram no mundo 2 a possibilidade de um Deus Ex Machina, como uma resolução de problema muito fácil que, até então, parecia não estar no mesmo patamar de qualidade que a trama já havia apresentado. Porém os roteiristas mantiveram o nível de complexidade da série e conectaram esse novo mundo de maneira precisa e, de certa forma, até surpreendente ao mundo que já conhecíamos.

Por ser uma série pensada desde o início para ter apenas três temporadas, os produtores puderam pensar os mínimos detalhes para encaixar todas as peças perfeitamente no quebra-cabeças temporal de Dark. Com isso a conexão entre os dois mundos, e até a resolução do problema geral já haviam sido apresentados, mesmo que em falas e cenas aparentemente normais, sem muita ligação com o todo.


E apesar de aprofundar ainda mais no si-fi, introduzindo conceitos além da viagem no tempo, como universos paralelos, sobreposição de estados quânticos e mais paradoxos temporais, a série não deixou o fator humano de lado, e os dramas familiares continuaram sendo a força motriz da trama. Os laços pessoais, e sobretudo o amor, são o carro chefe de uma produção que, ainda que reinvente certos aspectos do gênero de ficção científica, tem no sentimentalismo e na filosofia sua característica mais significativa.

Perguntas e Respostas

Nesta terceira e última temporada esperava-se que todas as perguntas que fizemos nas temporadas anteriores seriam respondidas, porém, não seria Dark se não ficássemos ainda mais confusos, não é mesmo?


Isso não quer dizer, em hipótese alguma, que esses questionamentos não foram respondidos, muito pelo contrário, a grande maioria dos mistérios criados no anos anteriores foi sim desvendada, entretanto por vias distintas. Alguns mistérios de maior importância foram revelados de maneira mais elabora, fazendo parte da trama principal e ajudando-a a se desenvolver; já outros, criados sobretudo pela ânsia por enigmas dos fãs, foram resolvidos de forma mais simplista, com explicações até um pouco rasas, como que por obrigação de dar uma satisfação aos espectadores; e outros continuarão eternamente como teorias no imaginário dos fãs.


Destaque para a verdadeira identidade de Aleksander Tiedemann, uma das questões principais da segunda temporada, tendo, inclusive, papel crucial para a abertura dos barris radioativos da usina a mando do detetive Clausen, dando origem ao apocalipse do mundo 1. Diversas teorias foram formuladas sobre sua origem, relacionando-o a outros personagens e até colocando-o como possível filho do Jonas do mundo 1 e da Martha do mundo 2, pela junção de seus sobrenomes, Kahnwald e Nielsen, formando Niewald, seu sobrenome original.

Porém tudo foi resolvido numa única cena, com Aleksander do mundo 2 relevando a Bartosz seu nome verdadeiro e dizendo que o assassinato foi na verdade um acidente, mas não sabemos porque ele roubou a identidade do verdadeiro Aleksander Koller e nem se os dois eram comparsas ou não. O que deixou uma impressão de que houve tanta coisa para ser mostrada nessa última temporada que algumas respostas como essas foram esquecidas ou deixadas de lado. O mesmo aconteceu com Mikkel/Michael, que apesar de ter sido teorizado como um elo importante na cadeia de acontecimentos, não teve a mínima importância para o desenvolvimento do clímax, sendo esquecido a maior parte da terceira temporada.

Direção e Elenco

Mais uma vez vale ressaltar o incrível trabalho da produção, que mantém o nível elevadíssimo de qualidade das duas primeiras temporadas, inserindo mais elementos ficcionais, mais personagens e mais subtramas, sem nunca deixar o espectador confuso de quando e onde tudo isso está acontecendo.


Aliás, a adição de um universo espelhado, com personagens e cenários idênticos por si só já seria um desafio extremo, no que diz respeito à coesão, para qualquer narrativa, exigindo uma premissa bem fundamentada na trama para que tudo se encaixe e não pareça um recurso narrativo barato, escolhido pelos roteiristas por acaso para resolver um problema complexo. E nesse quesito Dark dá um show, digno dos maiores elogios que vem recebendo, principalmente por ter plantado sementes quase imperceptíveis da existência de mundos alternativos desde a abertura da primeira temporada.


Não é à toa que a principal frase dita pelos personagens é "tudo está conectado". Não somente pelas árvores genealógicas estarem todas entrelaçadas ou os eventos de passado, presente e futuro se retro-influenciarem, mas especialmente porque várias pistas foram deixadas através de cenas, falas e objetos, aparentemente irrelevantes para o andamento da série, mas que no final se revelaram de suma importância para a resolução final.

E como dito na crítica da segunda temporada, essa façanha só foi possível através do planejamento exemplar da série. Tudo foi pensando ao mesmo tempo, num roteiro contínuo e fechado, com princípio, meio e fim muito bem definidos, não deixando quase nenhum espaço para furos de roteiro, improvisos narrativos ou soluções apressadas.


Por outro lado, o elenco também tem grande parcela no sucesso de Dark, especialmente as mulheres "viajantes", Claudia (Julika Jenkins e Lisa Kreuzer) e Martha do mundo 2 (Lisa Vicari e Barbara Nüsse). Com todo texto filosófico sobre dualismo, já era esperado que uma Eva entraria em cena para dividir as atenções com Adam, e foi nessa situação que Lisa Vicari, a Martha jovem, roubou o protagonismo de Jonas e deu um show de interpretação, exprimindo todo o sofrimento de sua personagem, semelhante ao de Jonas na primeira temporada, ao ver que está no epicentro de toda a convulsão temporal e não pode mudar seu futuro para melhor. E assim como Jonas, Martha se torna Eva (Barbara Nüsse), exatamente como esperávamos: uma versão feminina de Adam, filosófica e enigmática, sempre manipulando suas peças no xadrex temporal/interdimencional, para que seus objetivos sejam alcançados.


Claudia continuou sua busca pela origem de tudo, a fim de evitar o apocalipse e salvar sua filha Regina do sofrimento eterno, e nessa tarefa Julika Jenkins, que interpretou a personagem em seu estágio adulto, foi igualmente surpreendente. Sua função como personagem é dupla, ela ajuda tanto o espectador entender o que se passa, sem porém ser expositiva, quanto serve como um guia para o roteiro seguir a diante, revelando pontos a serem explorados futuramente, e se nas primeiras temporadas ela parece misteriosa, aparentando estar escondendo algo, aqui descobrimos que sim: ao buscar respostas para como o ciclo pode ser quebrado e qual sua origem, ela acaba sendo encontrada por sua contraparte do mundo 2, que é uma assecla de Eva. Ao descobrir que ela também está sendo enganada, que o ciclo nunca é quebrado e sua filha sempre morre de câncer, ela mata Claudia do mundo 2 e se torna uma agente dupla, trabalhando para si própria, viajando entre os mundos e manipulando-os, para assim descobrir como quebrar o ciclo. Toda essa construção, apesar não ser contínua, mostra como os roteirista souberam distribuir a relevância narrativa muito bem entre todo o elenco, cabendo a um coadjuvante o melhor desenvolvimento de personagem da série.

Filosofia e referências

Desde seu primeiro ano de exibição, Dark sempre teve um diferencial em comparação à outras séries mainstream: conceitos filosóficos e referências bíblicas e científicas são parte significativa do desenvolvimento do roteiro, e na última temporada, esse ponto ficou ainda mais evidente.


Sua filosofia vai além de meras citações de filósofos famosos e versículos bíblicos, mas executa na prática seus conceitos, fazendo-nos ver a realização de suas teorias. A frase Arthur Schopenhauer sobre o livre-arbítrio, "O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer", é a síntese do que vemos durante todas as três temporadas; assim como A diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão”, de Friedrich Nietsche pode ser classificada como uma sinopse da série; e dizer como Sigmund Freud que “Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, se convence que nenhum mortal pode guardar segredo. Aquele que não fala com os lábios, fala com as pontas dos dedos: nós nos traímos por todos os poros”, prova como nós e os personagens de Dark, muitas vezes somos algozes de nós mesmo.


Os conceitos de física quântica como entrelaçamento quântico, buracos negros e de minhoca e o famoso paradoxo de Bootstrap se misturam ainda mais com a filosofia, ressaltando o determinismo e a discussão sobre livre-arbítrio e a transformação do eterno retorno. Esse último elemento é um complemento excepcional para a viagem no tempo que desde a primeira temporada vem explicando vários acontecimentos, mas que na terceira temporada ajuda a revela como os dois mundos estão interligados e influenciando mutuamente um no outro. E mesmo que a maioria dos acontecimentos anteriores tenha sido explicada, fica claro como tudo se repete num ciclo infinito, tendo causas e efeitos semelhantes em ambos os mundos.


Além disso, inúmeros símbolos e mitos estão presentes na série, como o mito de Ariadne, com seu fio vermelho guiando Teseu para fora do Labirinto; o Ouroboros, a cobra que morde o próprio rabo, simbolizando que o fim também é o início; a Tábula de Esmeralda na criação da Sic Mundus; o quadro "A Queda dos Condenados", de Paul Peter Rubens representando o fim trágico dos personagens, além das referências bíblicas nos nomes dos personagens como Noah(Noé), Mikkel (Miguel), Adam e Eva, tipificando também suas personalidades e seus papeis na trama cíclica da série.

Veredito

Como temporada isolada a terceira temporada de Dark mantém as características próprias da série, apresentando muita qualidade cinematográfica e até uma evolução na maneira como transita entre as narrativas, porém não supera os anos anteriores, principalmente por ainda deixar algumas pontas soltas (como você pode ler aqui), e tomar algumas decisões apressadas, solucionando certos problemas facilmente, indo na contramão da complexidade típica da série.


Entretanto, como fechamento do ciclo, esta última temporada funciona quase que perfeitamente, encerrando a história dos viajantes no tempo de modo mais que satisfatório. E se muitos achavam que a série poderia terminar com um gancho para a primeira temporada, relevando que o ciclo sempre se repete, foi surpreendente ver como os roteiristas concluíram esta jornada: de forma poética e emocionante, mas sem sair um milímetro da linha si-fi, e ainda fez referência à Matrix e Interstellar, dois dos maiores filmes de ficção científica já feitos.


Essa também é uma questão importante no sucesso de Dark, suas referências e citações são sempre muito bem fundamentadas, e raramente são apenas mimos para os caçadores de easter eggs. Tudo está conectado á trama e faz parte do desenvolvimento geral da série, seja as frases de grandes filósofos, seja conceitos científicos mostrados através de diálogos ou explicações de um trabalho da escola. Dark é uma aula de Foreshadowing*, plantando dicas e respostas, antes mesmo das perguntas serem feitas.


Não podemos deixar de citar a equipe de produção, que foi de suma importância para o êxito da série, especialmente a responsável pelo casting, Simone Bär, que, como já dito nas críticas das temporadas anteriores, encontrou atores muito parecidos, criando uma coesão estética singular entre os personagens, assim como Nikolaus Summerer, diretor de fotografia, cujo trabalho de ambientação caracterizou a série de forma única, sendo fácil distinguir os mundos e tempos, apenas pela paleta de cores e enquadramento da tela, além dos roteiristas e diretores, o casal Baran Bo Odar e Jantje Friese, idealizadores de um projeto tão complexo e ambicioso como foi Dark.


O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.

Isaac Newton

5 JOIAS DO INFINITO PARA A 3ª TEMPORADA


6 JOIAS PARA A SÉRIE NO GERAL


*Foreshadowing é um recurso narrativo pelo qual um autor insinua fragmentos da história que ainda está por vir. É uma espécie de "truque narrativo" no qual um elemento é colocado em cena de maneira que o publico não o decifre de imediato, e sua volta posteriormente abala a trama de maneira significativa.


Acesse os links a seguir ou vá nas abas de séries e especiais no topo da página, para conferir artigos especiais e as críticas das 3 temporadas.


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Dark - 2ª Temporada - Sem Spoilers

7 Perguntas que não Foram Respondidas Pela 3ª Temporada de Dark


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