• Leo C. Arantes

Jojo Rabbit


Retratar um acontecimento histórico, por mais documentado e abordado que ele possa ser, como é o caso da II Guerra Mundial, é sempre um desafio, ainda mais se for em forma de sátira, já que a linha entre ironizar os acontecimentos e ideologias e ser leviano com a tragédia e o sofrimento das vítimas é muito tênue. Em Jojo Rabbit, o diretor Taika Watiti (diretor de Thor: Ragnarok e O Que Fazemos Nas Sombras) passeia sobre essa linha com maestria, criando um comédia dramática que transita o absurdo risível do Nazismo e o sofrimento do Holocausto.

Roteiro

Johannes "Jojo" Betzler é um garotinho solitário de apenas 10 anos de idade que tem, pasmem, Adolf Hitler como amigo imaginário. A criança usa farda quase o tempo todo e tem seu quarto completamente forrado de pôsteres e imagens do ditador alemão, tamanho é seu encantamento. Seu sonho é fazer parte da guarda pessoal de Hitler e para isso ele vai para um acampamento da Hitlerjugend, a Juventude Hitlerista, aprender as técnicas de guerra e se tornar um soldado a altura do seu ídolo.


Sempre confiante de que realizará sua missão de exterminar os judeus, ele não faz ideia do que é tirar a vida de alguém, e quando se depara com o primeiro obstáculo nesta jornada, se choca com sua inocência, que o impede de cometer um ato atroz, e por isso acaba sendo ridicularizado pelos jovens mais velhos.


Impedido de continuar seu treinamento devido um incidente com uma granada, Jojo passa a fazer pequenos trabalhos para o exército, como colar cartazes e entregar panfletos pela cidade. Em uma tarde, quando volta para a casa, ele ouve barulhos no andar de cima, e intrigado por estar sozinho em casa, decide investigar e acaba descobrindo que há uma menina judia escondida em uma parede falsa. Desesperado por encontra-la, ele tenta mata-la, mas ao perceber que não conseguirá, passa a "estuda-la" para escrever um livro de como derrotar os judeus; e a medida que ele a estuda, percebe que ela não uma aberração como se diz nas ruas e passa a vê-la de outra forma, digamos até carinhosa.

Direção e Elenco

A forma como Waititi conduz essas situações é notável, principalmente por abordar um tema tão abominável de forma leve, mas sem tirar o peso que ele exige. A inocência do garoto unida a seu fanatismo cego chega ser cômica, não pelas barbaridades que ele diz, mas por conta de quão ridículo isso é, em especial para uma criança. O Hitler, interpretado pelo próprio Taika Waititi, apresenta uma personalidade falastrona e espalhafatosa, exercendo sua autoridade através de caras e bocas que o faz parecer um personagem dos filmes de Charles Chaplin; não obstante o humor presente em Jojo Rabbit é muito semelhante às comédias do cinema mudo, evocando o tom jocoso pelo exagero presente não só nos gestos, mas também nas falas.


A imagem que é passada dos judeu é grotesca, ilustrando-os como figuras mitológicas, com direito a chifre e línguas de serpente, e tais ilustrações fazem parte da lavagem cerebral que os jovens alemães sofrem. E engana-se quem pensa que toda essa estupidez é oculta ou está implícita nos diálogos, antes, o texto é bastante expositivo, revelando toda a periculosidade que estas "criaturas" apresentam ao povo alemão de forma clara e evidente.


A fotografia bastante colorida de Mihai Malaimare Jr. (O Mestre) dá um ar fabuloso à trama e ameniza as crueldades deste período da História de tal maneira que facilmente nos desgarramos do drama e somos capturados pela aventura, sensação esta que é acentuada pela bela trilha sonora Michael Giacchino (vencedor do Oscar por Up - Altas Aventuras).

As atuações também têm grande participação na qualidade do filme, em especial a dupla de protagonistas. Roman Griffin Davis faz sua estreia no cinema com uma atuação formidável como Jojo Rabbit, apresentando um garotinho que, mesmo fanático ao Führer, mostra uma fofura ímpar em suas relações e Thomasin Mackenzie, como a judia Elsa, expressa muito bem suas emoções e sua ironia ao tratar com Jojo e suas teorias bizarras sobre os judeus rende ótimas cenas, em particular a da inspeção da Gestapo. Scarlett Johansson, foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel de Rose, a mãe Jojo, e está exuberante. Seu drama por odiar o nazismo e ver seu filho nutrir um fanatismo por essa ideologia é tocante, sobretudo por ela trata-lo com tanto carinho e tentar convencê-lo, com falas bem sutis, de que a guerra não tão glamourosa como ele pensa que é. E Taika Waititi nos apresenta uma caricatura bem marcante de Hitler, sobretudo pelos seus trejeitos e exageros.

Veredito

Mesmo correndo o risco de tratar um tema tão delicado como o holocausto de maneira leviana, o diretor/roteirista/ator Taika Waititi produziu uma comédia dramática da melhor qualidade e que produz tanto lágrimas, quanto sorrisos, não obstante o longa foi indicado ao Oscar de melhor filme e venceu o prêmio de melhor roteiro adaptado. A forma como ele desenvolve seus personagens e aprofunda suas relações, assim como abre a ferida do preconceito é direta, ao mesmo tempo retarda a chegada da guerra propriamente dita à cidade, corroborando com a ideia fantasiosa que o garoto tem desta situação, dando algumas pistas de que ela está cada vez mais próxima a medida que o filme vai chegando ao fim, e no ápice revela todos os horrores que o conflito proporciona. A estética muito colorida deixa o tom mais leve, permitindo que públicos de qualquer idade possam apreciar o filme, e além de proposital para amenizar as barbaridades da época, sem relaxa-las, é bom ressaltar, serve para deixar o longa mais aventuresco, evocando os clássicos da Sessão da Tarde, e trazendo um humor mais humano, com inteligência o suficiente para levantar boas reflexões sobre o tema.


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