• Leo C. Arantes

O Farol - Com Spoilers

Atualizado: 19 de Ago de 2020


Um dos filmes de terror mais aguardados de 2019, O Farol (The Lighthouse) estreou nos cinemas mundo afora em 18 de outubro do ano passado mas só chegou em terras tupiniquins em 2 de janeiro de 2020, já colecionando elogios das mídias especializadas. O longa do diretor Robert Eggers é uma ode ao cinema como expressão artística, referenciando inúmeras outras obras cinematográficas, literárias e até relatos reais de faroleiros e marinheiros coletados ao longo da produção. A obra segue os mesmos passos do trabalho anterior de Robert, A Bruxa (2015), um filme sobre como convicções, orgulho e isolamento podem enlouquecer as pessoas. Aqui os produtores abusam de alegorias e de diversos artifícios técnicos para criar uma obra de arte clássica desde seu lançamento.

Roteiro

Robert também corroteirizou a película com seu irmão Max Eggers explorando ao máximo os recursos disponíveis para criar uma atmosfera densa, suja e barulhenta a fim de nos imergir nessa experiência.


O filme conta a história de dois faroleiros, o veterano Thomas Wake (Willem Dafoe) e novato, recém chegado a ilha, Ephraim Winslow (Robert Pattinson) e o convívio conturbado deles a medida que as 4 semanas de isolamento avançam. As nuances de suas personalidades são conhecidas aos poucos, apesar de notarmos logo de cara que se tratam de um velho turrão, que vive apenas dando ordens e é carrancudo demais para ensinar qualquer coisa relevante para o novo zelador, que através da sua timidez, prefere ficar em silêncio a dar trela para as histórias mirabolantes do seu companheiro mais experiente.


Com temperamento reservado, Winslow se sente cada vez mais pressionado pelos hábitos nada educados de Wake, que o irrita a cada regra imposta por ele. A vista de que Thomas tem o privilégio de poder acessar a torre do farol todas as noites e Ephraim arca com todas as tarefas pesadas que demandam a ilha, ele demonstra certo estresse, principalmente depois de se embriagar pela primeira vez. Antes relutante quanto a bebida, constantemente oferecida por Thomas, o novato, agora entregue aos seus prazeres, passa e ter delírios e alucinações, ampliadas não só pela bebida alcoólica, mas também pela abstinência sexual, manifestada pelas visões de uma sereia.

Simbolismo, Alegorias e Referências

Os spoilers citados no título desta crítica não se referem apenas ao enredo, mas também aos simbolismos e referências presentes na trama, magistralmente inseridos pela dupla de roteiristas. Não demoramos a perceber a forte influências da obra literária de H.P. Lovecraft no longa; o horror cósmico, inerente aos seus livros, denota o encontro do ser humano com o desconhecido; a humanidade em sua insignificância, diante de criaturas ancestrais, tão antigas quanto o próprio tempo, é incapaz de suportar tamanha revelação. Dai o fato de muitos de seus personagens perderem a sanidade ou se suicidarem. Além disso, a criatura mais conhecida da mitologia criada por Lovecraft, Cthulhu, também é diretamente referenciada pelos tentáculos vistos por Winslow em algumas cenas, principalmente na segunda metade do filme.


O movimento conhecido como Expressionismo Alemão, caracterizado pela distorção de cenários e personagens, além de recursos de fotografia e outros mecanismos, também é facilmente associado com O Farol. O diretor optou por capturar o filme inteiro em preto e branco, através de uma lente 35mm, lembrando muito o cinema mudo das décadas de 1910 à 1930, evocando obras como Metrópolis (1927) de Fritz Lang e Nosferatu (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau. A tela quase quadrada, em proporção 1:19:1, causa certo desconforto aos acostumados com telas widescreen, nos incitando a curiosidade sobre o que há fora de enquadramento; mas tudo isso faz parte de como a narrativa é apresentada.


Ademais, diversas metáforas e alegorias são percebidas, principalmente em relação à mitologia greco-romana, sendo uma alegoria em específico, uma possível explicação para o final do filme. Ao final do longa, Ephraim está sendo devorado pelas gaivotas, tal qual o mito de Prometeu, responsável por roubar o fogo dos deuses e dar aos homens, sendo assim castigado pelo próprio Zeus, que o deixou amarrado a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado — que se regenerava no dia seguinte. O fogo de Prometeu aqui é o topo do farol, cobiçado pro Winslow por todo o filme, mas sempre protegido por Wake, que também faz alusão à uma figura mitológica: Proteu, filho de Netuno e protetor dos mares.

Direção e Elenco

Apesar de no começo vermos alguns marinheiros, principalmente na chegada do novato à ilha, e em algumas visões e alucinações dos personagens vermos uma sereia e um homem, o elenco é formado apenas por Robert Pattinson e Willem Dafoe, que, se não fosse o descaso que a Academia tem com filmes de gênero, como é o caso de O Farol, os dois seriam sérios candidatos ao Oscar de melhor ator e melhor ator coadjuvante.


É espantoso como a dupla se entrega aos papéis. Nos momentos de solidão que o personagem de Pattinson passa, vemos a raiva reprimida apenas pelo seu olhar, exteriorizada numa das cenas mais chocantes da obra, quando ele espanca uma gaivota até a morte, socando-a contra a cisterna; o desespero de não saber exatamente o que está acontecendo ao seu redor é extravasado através da masturbação, escondido na sala da caldeira, quando também podemos perceber o sentimento de culpa por estar sucumbindo aos seus delírios. Já o personagem de Dafoe, ainda que pareça raso (já vimos muitas vezes a figura do cara mais experiente que menospreza seus subordinados) é interpretado com maestria, acrescentando camadas e mais camadas ao velho ranzinza. O ator norte-americano dá um show fazendo um ancião manipulador e autoritário, igualmente espalhafatoso, que acredita piamente nas histórias fantasiosas que conta. Atenção especial a um monólogo já no segundo ato, em que amaldiçoa seu companheiro invocando os mares para puni-lo.

O trabalho de pesquisa dos roteiristas, principalmente quanto à linguagem foi de uma sagacidade ímpar. Ao inserirem expressões idiomáticas usadas por marinheiros no início do século passado, além dos já citados recursos técnicos, os irmãos Eggers localizam O Farol devidamente no seu tempo; não porque o filme está em P&B, mas porque tudo no longa remete a este período da História. Seja os planos fixos e mais longos que os usados atualmente, seja o ambiente escuro e claustrofóbico no interior da cabana, ou até mesmo o figurino, confeccionado com os mesmos tecidos que eram usados naquela época. Absolutamente tudo em O Farol foi feito como se fazia naquele tempo. Outro aspecto que merece elogios é a sonorização, talvez a maior responsável pelo desconforto ao assistir o filme, que, ora com batidas insistentes, ora com buzinas, ruídos e gritos vindos de sabe-se lá de onde, vão deixando nossos ouvidos cada vez mais incomodados, criando a tensão que o filme exige e imergindo-nos na atmosfera pesada que paira sobre a ilha.

Veredito

The Lighthouse entra sem dúvida nenhuma para a lista dos melhores filmes de terror da década de 2010. Indo na contramão de filmes que dependem de jumpscares para gerar apreensão aos espectadores, como os da franquia Invocação do Mal, por exemplo. O filme constrói tensão a partir do ambiente sombrio, dos sons enigmáticos e da fotografia fenomenal utilizada pelo diretor Robert Eggers; que mais uma vez nos apresenta um excelente filme de horror, sobretudo horror lovecraftiano, capaz de enlouquecer e manipular até o espectador mais experiente neste gênero. Provando que não é um diretor de um filme só, ele não apenas repete o sucesso de A Bruxa, mas subverte suas características, aplicando recursos narrativos opostos aos do seu filme anterior; se no filme de 2015 a quietude da região onde a trama se passava era o que causava ansiedade e angústia, aqui a tempestade que se aproxima (literal e metaforicamente) é o gatilho que aciona a insanidade que recai sobre a dupla de personagens. Outrossim, as diversas referências literárias, cinematográficas e até mesmos a casos reais, que captamos ao longo da exibição enriquecem ainda mais esta obra, exemplo perfeito de como a sétima arte transcende as eras e se torna atemporal.

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