• Leo C. Arantes

The Witcher - 1ª Temporada

Atualizado: 27 de Mai de 2020


Uma das série mais esperadas da Netflix em 2019, The Witcher, série de livros já adaptado brilhantemente para o mundo dos videogames, foi enfim trazida para o âmbito cinematográfico, cabendo a Henry Cavill o privilégio de interpretar Gerald de Rívia, o bruxo mais carrancudo da cultura pop. A primeira temporada da saga de Gerald consegue driblar os perigos que adaptações como esta costumam ter e, mesmo com alguns deslizes pontuais, vence a insegurança de parte da crítica e do público, principalmente quanto à caracterização e ambientação em um universo tão rico como o criado pelo autor polonês Andrzej Sapkowski.

Roteiro

Na série acompanhamos o protagonista Gerald, um bruxo mutante que se aventura por cidades e vilarejos cumprindo seu papel como mercenário, matando todo tipo monstros em troca de dinheiro ou "surpresas" (já já eu explico essa parte). Mas os holofotes não estão virados apenas para ele, Yennefer de Vengerberg, uma maga muito poderosa com um passado trágico, e Cirilla, a jovem princesa do reino de Cintra, também dividem as atenções dos espectadores.


É particularmente complicado resumir o enredo da série já que as cenas do passado e presente são intercaladas, todavia vemos um linha principal ser traçada: num passado distante, Yennefer, maltratada pelo pai, é vendida por ele para Tissaia de Vries, arquimaga e reitora na escola de magos de Aretuza. Lá a jovem é ensina a controlar a magia do caos, que nela é potencializada pelo seu sangue 1/4 elfo. Atormentada por sua deformidade, ela usa a magia e passa por um ritual para se tornar bela e liberar todo o poder contido em seu sangue. Tempos depois Gerald, a pedido de Stregobor, outro mago, vai atrás da princesa Renfri para matá-la, por esse motivo se envolve em uma matança, ganhando fama e o apelido de Carniceiro de Blaviken. Em um de seus serviços, o bruxo acaba libertando um djinn, criatura poderosa que concede três desejos à quem o libertou, na tentativa de aprisiona-lo, Gerald conta com a ajuda de uma maga que acabou de conhecer, Yennefer. Após conhecer um bardo chamado Jaskier, ele o escolta em uma festa da família real de Cintra, em um incidente envolvendo um pretendente a noivo da princesa Pavetta, o bruxo termina por salvá-la, invocando a Lei da Surpresa*. Anos depois nasce Cirilla, filha de Pavetta e herdeira do trono de Cintra, que mais tarde seria invadida por Emhyr var Emreis, rei de Nilfgaard. Disposta a escapar do ataque nilfigaardiano, Ciri procura por Gerald a fim de seguir seu destino.

Este foi um brevíssimo resumo do que houve na série e apesar de o enredo da franquia The Witcher já ser bastante conhecida pelo público, especialmente após o lançamento do terceiro jogo, The Witcher 3: Wild Hunt, em 2015, é sempre bom salientar que, diferente do que muitos podem imaginar a série não adapta os jogos, mas sim os dois primeiros livros, O Último Desejo e Espada do Destino, que contém basicamente contos, tendo apenas a presença de alguns personagens como ponto em comum. Tais contos não tem qualquer linearidade, indo e vindo na linha temporal, que só é contínua a partir do terceiro livro, Sangue dos Elfos, quando aí sim a história passa a ser contada como um romance.


Tendo ciência disso podemos entender melhor o que se passa durante os episódios, e porque tanta confusão em relação a cronologia dos acontecimentos. E aqui cabe pontuar dois aspectos, um positivo e outro negativo quanto as escolhas narrativas feitas pelos roteiristas:

  • O positivo é que a inserção da princesa Cirilla foi logo no começo da série, diferente da obra original, onde ela só é citada a primeira vez no final do primeiro livro, o que poderia causar certa confusão, visto que a trama gira em torno dela.

  • O negativo é que ao exibirem cenas de diferentes períodos da história, sem ao menos mencionar o ano em que os fatos ocorrem, não conseguimos nos situar na cronologia, levando alguns espectadores a perceberem que se tratavam de linhas temporais desconexas apenas por volta do quarto ou quinto episódios (como foi meu caso). Para te ajudar a própria Neflix publicou um infográfico explicando toda linha do tempo que você pode conferir clicando aqui.

Direção e Elenco

Apesar deste pequenos deslize podemos perceber ao longo dos episódios que a equipe de roteiristas alterou apenas o essencial do material-fonte, sem ficar criando "firulas narrativas" para prender a atenção do espectador ou inserindo elementos aleatórios para criar uma tensão desnecessária. A introdução de Ciri ainda no início do enredo também é uma prova do capricho que a produção teve para apresentar esse universo tão rico aos que por ventura o estão conhecendo só agora, mas sem desapontar os fãs de longa data com modificações extremas exigidas pela produtora, como é o caso de várias adaptações cinematográficas de outras mídias.


A ambientação num mundo sombrio, cercado de magia por todos os lados é digna de elogios, e mesmo dividida em três partes bem distintas, consegue dar a devida atenção a cada uma delas, sem deixar de desenvolver um núcleo para enfatizar outro. A trama assume tons mais épicos no núcleo de Yennefer, focada na magia, e em grandes batalhas como nos últimos capítulos, quando é descrita a Batalha do Monte Sodden, importantíssima para a motivação dos magos e para o desenrolar das próximas temporadas; já o eixo de Gerald é bem mais intimista, mostrando seu trabalho como mercenário, caçando criaturas como a Kikimora e a Striga, rendendo cenas de ação muito bem coreografadas, como a do mercado de Blaviken e seu plano sequência de tirar o fôlego, e sua busca por Ciri após o ataque sofrido por Cintra pelos exércitos de Nilfgaard. E ao núcleo de Ciri cabem todas as conspirações políticas ligadas ao seu reino e todas as intrigas relacionadas à família real, que servem apenas como pano de fundo para o andamento da série.


Além disso podemos perceber um respeito muito grande com a essência de cada personagem, em especial quanto às atuações do trio principal. Henry Cavill, fã declarado da série, inclusive dos jogos, encarnou de forma sublime seu personagem. A personalidade mal-humorada, ranzinza e quase sempre solitária, junto com a voz, dita a maioria das vezes por entre os dentes é nitidamente resultado de alguém que conhece o seu papel e sabe como desempenha-lo com excelência, tornando impossível não identificar a influência dos jogos na sua interpretação de Gerald. Anya Chalotra, a despeito das críticas, está exuberante como Yennefer, exprimindo todo o sofrimento da personagem em seus momentos mais cruéis e, após sua transformação, mostrando-se mulher forte e decidida, que, não importa o que lhe aconteça, alcançará seus objetivos. E Freya Allan, em seu papel mais importante na carreira consegue expressar muito bem a pureza de uma jovem princesa e dar um vislumbre da mulher destemida que se tornará no futuro.

Veredito

Antes da estreia de The Witcher muitos diziam que esta seria a Game of Thrones da Netflix, muito por conta do fim da série da HBO e por ambas serem ambientadas em universos repletos de magia, nudez, muita violência e intrigas políticas, mas a verdade é que The Witcher é bem diferente do obra de George R.R. Martin. Aqui a trama toma um ar mais aventuresco e menos político, apresentando muitos conceitos próprios em prol da fluidez narrativa, mas sem desrespeitar a obra original. Mesmo os pequenos deslizes aqui e ali, como a aparente pressa para apresentar tais conceitos, o pouco desenvolvimento da grande maioria dos personagens, assim como a já citada bagunça temporal, não afetam a qualidade invejável que a série exibe, que não à toa, tem a melhor nota do site IMDb entre as séries originais do seu serviço de streaming. Com grande potencial para ser ainda melhor nas temporadas vindouras, The Witcher já é um grande sucesso da cultura pop, sendo a série mais vista de 2019, mesmo sendo lançada em 20 de dezembro. Isso só prova que o universo criado por Andrzej é realmente uma grande fonte de tesouros, podendo ser explorada por muito tempo e rendendo ótimas histórias. Fica a expectativa para a segunda temporada, já confirmada para 2021.


*Lei da Surpresa é uma forma de recompensa dada àquele que salvou a vida de alguém, em uma situação em que a pessoa salva não teria como pagar. Logo este pagamento fica por conta do destino, tendo a pessoa salva que ofertar a primeira coisa que ela passa a ter conhecimento que esta em sua posse, por exemplo um filho, o dinheiro que achou no bolso da calça, uma cria de um de seus animais ou até mesmo um objeto perdido que veio a encontrar.

5 JOIAS DO INFINITO

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